Raziel acorda no abismo com as asas arrancadas e uma voz ancestral ecoando na cabeça. Vinte e cinco anos depois, essa abertura ainda arrepia. Legacy of Kain: Soul Reaver 1 & 2 Remastered traz de volta dois títulos que marcaram o action-adventure com sua narrativa densa, ambientação gótica e a mecânica de alternar entre planos materiais e espectrais. A pergunta que fica é: essa remasterização faz justiça à memória afetiva ou o tempo cobrou seu preço?
A Deluxe Edition no PlayStation 5 entrega boas horas de revisitação a Nosgoth. O que se encontra é um pacote contraditório: de um lado, uma das histórias mais bem escritas dos games, com atuações de voz que ainda são referência; do outro, um combate que range e escolhas de design que envelheceram com rugas profundas. Para quem viveu a época, é um reencontro emocionante. Para quem chega agora, é uma aula de como os jogos contavam histórias antes do cinema interativo dominar, desde que você tolere alguns solavancos.
Jogo analisado
O que observar antes de comprar
- Sua paciência para combate repetitivo e ritmo lento define se o jogo agrada; o destaque está na história, não na ação.
- A Deluxe Edition inclui steelbook, livreto de arte e trilha sonora em CD, pense se o extra vale, já que a versão digital já entrega todo o conteúdo do jogo.
- No PS5, a performance é suave: 60fps e carregamento de cerca de 1 segundo. O tamanho é enxuto, 7,88 GB.
- Para fãs de Metroidvania que curtem explorar cenários interligados com puzzles de troca de planos, a proposta se sustenta.
- O sistema de save do primeiro jogo salva a qualquer momento, mas sempre retorna ao ponto central da fase, frustra quem prefere checkpoints modernos.
1. Legacy of Kain Soul Reaver 1 & 2 Remastered Deluxe Edition. PlayStation 5
Fonte: Amazon.com.brLegacy Of Kain Soul Reaver 1 &2 Remastered Deluxe Edition: Playstation 5
Confira os detalhes completos diretamente na Amazon.
Poucas franquias dos anos 2000 envelheceram tão bem na palavra e tão mal no punho quanto Legacy of Kain. Soul Reaver 1 & 2 Remastered é um testamento disso. A trama de Raziel, traído por Kain, ressuscitado pelo Ancião e lançado numa caçada que atravessa séculos, continua afiada, com diálogos que poderiam estar num romance gótico. Amy Hennig já mostrava ali o talento que depois explodiria em Uncharted. Cada fala de Michael Bell (Raziel) e Simon Templeman (Kain) carrega peso dramático que falta em muito jogo contemporâneo. As cutscenes re-renderizadas com modelos de alta fidelidade só reforçam essa força. Mas o combate é o calcanhar de aquiles. No primeiro Soul Reaver, você passa boa parte do tempo empurrando blocos, acertando vampiros com golpes básicos e usando o ambiente, estacas de madeira, luz do sol, para matar os inimigos. A ideia é criativa, a execução é monótona. A câmera, mesmo com o novo controle pelo analógico direito, ainda prende em corredores estreitos. O segundo jogo melhora um pouco, com movimentos mais fluidos e a habilidade de possessão, mas não espere combos de God of War. Quem busca ação vai bater cabeça. Onde o remaster brilha é no respeito ao material original. A alternância entre plano material e espectral continua hipnotizante: um mundo desaba em tons sépia, outro se ergue com cores vibrantes e geometrias impossíveis. A possibilidade de trocar entre os gráficos remasterizados e os originais em tempo real é um show à parte, você vê a diferença nos modelos de Raziel e nos chefes, mas percebe que as texturas de cenário ganharam menos carinho. No PS5, o jogo roda a 60fps sólidos, carrega em segundos e não apresenta bugs graves conforme as especificações. As fases cortadas (Undercity, Smokestack, Retreat, Forges) adicionam horas de exploração para quem já conhece de cor os caminhos originais. No fim, Soul Reaver 1 & 2 Remastered é um prato cheio para saudosistas e amantes de narrativa densa. Quem não tem apego pela série vai estranhar o gameplay datado, a navegação confusa (o mapa novo ajuda, mas não resolve tudo) e alguns puzzles que mais frustram do que desafiam. O pacote da Deluxe Edition é caprichado para colecionadores, steelbook, art book, CD da trilha sonora, mas o essencial está na versão digital. A pergunta não é se vale a pena, mas se você está disposto a aceitar que um jogo pode ser genial na história e mediano na execução. Eu aceitaria. Nostalgia pesa, e aqui pesa com qualidade.
Prós
- Narrativa rica e atuações de voz que ainda são referência no gênero
- Performance sólida no PS5: 60fps e carregamento quase instantâneo
- Alternância entre gráficos originais e remasterizados em tempo real
- Conteúdo bônus generoso com fases cortadas, galeria e making-of
Contras
- Combate repetitivo e câmera problemática em espaços apertados
- Sistema de save do primeiro jogo inconveniente (volta ao hub)
A mecânica que salvou o jogo (e a que quase o enterra)
Alternar entre o plano material e o espectral é o coração de Soul Reaver. Num segundo você está num templo iluminado por tochas; no outro, o mesmo espaço se deforma em ruínas monocromáticas, com plataformas que antes não existiam e inimigos que só aparecem quando a realidade se desfaz. É um conceito que envelheceu muito bem, ainda que a execução técnica original, sem loading entre os planos, continue impressionante. O remaster refina isso com transições mais rápidas e partículas mais bonitas.
O problema é o que você faz quando não está trocando de mundo. O combate é raso: você tem ataques básicos, um bloqueio e, no primeiro jogo, pouquíssima variedade de golpes. A graça está em usar o ambiente para finalizar vampiros, espetar num pico, queimar no sol, mas a repetição cansa. Os chefes exigem estratégia específica (Rahab precisa de luz, Melchiah de estacas), mas a luta em si é lenta e sem muita margem para erro. Para quem veio de jogos de ação modernos, o baque é grande.
Visual que honra o passado, mas tropeça nos detalhes
A equipe da Aspyr, liderada pela modder Raina Audron, fez um trabalho caprichado nos personagens. Raziel ganhou texturas que destacam cada cicatriz e músculo; Kain parece ainda mais imponente com a armadura repaginada. Os chefes antigos, que nos originais eram blocos poligonais, agora têm expressões e detalhes que tornam as cutscenes mais impactantes. A névoa espectral, os efeitos de luz e a Soul Reaver brilhando no braço de Raziel estão lindos.
Por outro lado, as texturas de cenário foram upscaladas por IA e o resultado é misto. Paredes e pisos ganham definição, mas em muitos cantos parecem borrados ou com artefatos estranhos. A comparação com os originais revela que os desenvolvedores focaram no que importa para a experiência, personagens e efeitos, enquanto o chão e as paredes ficaram em segundo plano. Não chega a estragar a ambientação, mas quem espera um remake visual completo vai se decepcionar. O modo foto ajuda a mascarar algumas arestas e renderiza cenas lindas do Nosgoth remasterizado.
Para quem este remaster realmente faz sentido
Se você cresceu com Raziel e Kain discutindo filosofia enquanto atravessava catedrais góticas, este pacote é um presente. A nostalgia aqui é servida com respeito: as melhorias são suficientes para tornar a experiência mais agradável sem descaracterizar o original. As fases cortadas são um deleite para quem já decorou cada corredor, explorar a Undercity ou a Forges pela primeira vez em décadas renova o fôlego. A performance no PS5 elimina qualquer barreira técnica que antes afastava jogadores novos.
Agora, se você nunca jogou Soul Reaver e busca ação fluida, prepare-se para um choque de ritmo. O jogo exige paciência para explorar, tolerância para combates arrastados e fascínio por histórias que se desenrolam em diálogos longos. Não é um jogo para qualquer um, é para quem valoriza texto bem escrito e atmosfera sobre a adrenalina do gameplay. No fim, o veredito é claro: fãs de narrativa densa vão encontrar um dos melhores exemplos do meio; quem prioriza jogabilidade moderna talvez deva passar longe.
Perguntas frequentes sobre review Legacy Of Kain Soul Reaver 1 &2 Remastered Deluxe Edition PlayStation 5
O remaster inclui os dois jogos completos?
Sim, a coleção traz Soul Reaver (1999) e Soul Reaver 2 (2001) na íntegra, com todos os níveis originais e ainda algumas fases cortadas que não entraram na versão final de 1999.
A Deluxe Edition vale o investimento extra?
Se você é colecionador e curte itens físicos como steelbook, livreto de arte e CD da trilha, sim. O conteúdo digital é idêntico ao da versão padrão, então o extra é puramente tangível.
O combate melhorou em relação aos originais?
Os controles foram atualizados com suporte a analógico direito para câmera e opção de esquema moderno, mas a mecânica de luta continua a mesma: limitada e repetitiva. O segundo jogo é um pouco mais fluido.
Quantas horas dura a campanha completa?
Cada jogo leva cerca de 15 a 18 horas na campanha principal. Se você quiser explorar tudo, incluindo as fases cortadas, pode chegar a umas 30 horas no total.
O jogo tem problemas técnicos no PS5?
Na experiência com o jogo, a performance foi excelente: 60fps firmes, carregamento de cerca de 1 segundo e nenhum travamento. Alguns relatos apontam bugs de clipping e luz, mas não encontrados de forma generalizada.
